A baixa autoestima pode aparecer de maneiras menos óbvias do que simplesmente não gostar de si. Às vezes, ela surge na comparação constante, na dúvida sobre as próprias escolhas, na necessidade de aprovação ou naquela sensação persistente de que os outros parecem mais seguros, interessantes ou preparados. Mesmo quando existe reconhecimento externo, pode ser difícil acreditar que ele corresponde à realidade.

Nesse contexto, pertencer também pode parecer algo que precisa ser conquistado. A pessoa observa como fala, como se comporta e como é percebida, enquanto tenta descobrir se está ocupando aquele espaço da maneira certa. Como resultado, a opinião de fora pode ganhar um peso cada vez maior na forma como ela se enxerga.

Compreender esse funcionamento permite olhar para a autoestima além de frases positivas ou tentativas de aumentar a confiança. Afinal, a maneira como alguém constrói seu valor pessoal pode estar relacionada à própria história, às relações, às experiências de pertencimento e aos padrões de pensamento que desenvolveu ao longo da vida.

O que é baixa autoestima?

A autoestima está relacionada à maneira como uma pessoa percebe e avalia a si mesma.

Quando existe baixa autoestima, essa percepção pode ser marcada por insegurança, autocrítica e dificuldade para reconhecer qualidades ou capacidades sem imediatamente relativizá-las.

Por exemplo, um elogio pode ser recebido com desconfiança. Uma conquista pode ser atribuída à sorte. Já um erro pode ganhar uma importância muito maior e parecer confirmar aquilo que a pessoa teme sobre si.

Nesse sentido, experiências positivas e negativas podem receber pesos bastante diferentes.

Ao mesmo tempo, a baixa autoestima não aparece necessariamente da mesma forma em todas as pessoas. Alguém pode se sentir relativamente seguro no trabalho e profundamente inseguro nos relacionamentos. Da mesma maneira, uma pessoa pode demonstrar confiança socialmente e, ainda assim, manter uma avaliação interna bastante crítica sobre si.

Por isso, compreender a autoestima exige observar os contextos em que essa insegurança aparece e os padrões que costumam acompanhá-la.

Quando a comparação começa a definir o próprio valor

Comparar-se faz parte da experiência humana. Contudo, a comparação pode se tornar especialmente desgastante quando funciona como uma medida constante do próprio valor.

Nesse caso, a atenção tende a procurar evidências de que os outros estão em vantagem.

Alguém parece mais confiante. Outra pessoa avançou mais rapidamente na carreira. Uma amiga está em um relacionamento enquanto você está solteira. Um colega parece saber exatamente o que deseja para o futuro.

A partir dessas comparações, diferenças podem começar a ser interpretadas como insuficiências.

Esse padrão pode ser particularmente presente em fases de construção da identidade e de decisões importantes. No briefing da Liza, por exemplo, comparação social, baixa autoestima, insegurança e dificuldades de pertencimento aparecem entre as questões que podem atravessar a adolescência. Já entre mulheres jovens, também aparecem pressão por desempenho, comparação e sensação de estar “atrasada” em relação às expectativas sociais.

Assim, a comparação não acontece no vazio. Ela também pode refletir expectativas sobre onde uma pessoa acredita que deveria estar, o que deveria ter conquistado e quem deveria ser naquele momento da vida.

A sensação de que todo mundo pertence, menos você

A sensação de não pertencimento pode surgir em diferentes contextos.

Na adolescência, por exemplo, grupos de amizade, escola, imagem corporal, identidade e aceitação podem ganhar uma importância particular. Além disso, adolescentes LGBTQIA+ podem vivenciar questões relacionadas à aceitação, medo de rejeição e necessidade de encontrar espaços seguros de expressão.

Entretanto, a sensação de não pertencer também pode continuar ou aparecer na vida adulta.

Ela pode surgir em um ambiente profissional, em um grupo de amigos, em uma família ou até dentro de um relacionamento. Às vezes, a pessoa participa desses espaços, mas permanece observando a si mesma como se estivesse sendo constantemente avaliada.

Em termos práticos, pode existir uma pergunta silenciosa por trás das interações: “será que eu deveria estar aqui?”.

Quando essa dúvida aparece com frequência, a pessoa pode começar a ajustar excessivamente o próprio comportamento para reduzir o risco de rejeição. Com isso, pertencer deixa de significar participar de uma relação sendo quem se é e passa a depender de corresponder ao que se imagina que os outros esperam.

Quando a aprovação dos outros se torna uma medida de autoestima

Ser reconhecido e aceito pelas pessoas importantes pode ter valor. Porém, existe uma diferença entre apreciar reconhecimento e depender dele para sustentar a própria percepção de valor.

Quando a aprovação externa assume esse papel, a autoestima pode ficar vulnerável às respostas dos outros.

Um elogio traz alívio. Entretanto, uma crítica pode gerar uma dúvida profunda sobre si. Da mesma forma, uma mensagem sem resposta, uma discordância ou a sensação de ter decepcionado alguém pode assumir uma dimensão maior.

Nesse cenário, agradar também pode se tornar uma forma de buscar segurança.

A pessoa pode evitar discordâncias, ter dificuldade para estabelecer limites ou pensar excessivamente antes de expressar aquilo que deseja. Afinal, se ser aceita parece depender de corresponder às expectativas, qualquer possibilidade de desagradar pode ser percebida como uma ameaça ao vínculo.

Com o passar do tempo, essa dinâmica pode dificultar até mesmo o reconhecimento das próprias necessidades.

Baixa autoestima e autocrítica caminham juntas?

A autocrítica excessiva aparece entre as principais demandas atendidas na prática clínica de Liza, assim como a baixa autoestima.

Embora sejam experiências distintas, elas podem se relacionar.

Uma pessoa que se avalia de maneira muito rígida pode prestar atenção principalmente aos próprios erros e limitações. Além disso, pode estabelecer critérios difíceis de alcançar para considerar que fez algo suficientemente bem.

Quando consegue atingir uma meta, talvez a conquista seja rapidamente minimizada. Porém, quando algo dá errado, o episódio pode se transformar em uma conclusão sobre quem ela é.

Assim, “eu errei” pode se aproximar de “eu sou incapaz”. Da mesma maneira, “essa pessoa não se interessou por mim” pode ganhar o sentido de “ninguém vai se interessar”.

Nesse contexto, a autocrítica deixa de avaliar apenas uma situação e passa a participar da construção da própria identidade.

Por isso, compreender a maneira como alguém fala consigo mesmo pode revelar muito sobre os padrões que sustentam uma autoestima fragilizada.

A cobrança pode parecer uma forma de melhorar

Nem sempre a autocrítica é percebida como um problema.

Às vezes, a pessoa acredita que precisa se cobrar para não se acomodar, cometer erros ou decepcionar os outros. Nesse caso, reduzir a cobrança pode até parecer perigoso.

Surge a ideia de que, sem essa pressão interna, o desempenho pioraria.

Contudo, vale observar o que essa estratégia produz. A cobrança realmente ajuda a aprender com um erro ou apenas prolonga a sensação de fracasso? Ela favorece uma decisão ou aumenta a insegurança? Ela estimula crescimento ou mantém a sensação de nunca ser suficiente?

Essas perguntas ajudam a diferenciar responsabilidade de uma avaliação pessoal constantemente punitiva.

Além disso, reconhecer um padrão de autocrítica não exige abandonar critérios, objetivos ou responsabilidade. O processo pode ajudar a construir formas mais funcionais de avaliar experiências e responder a elas.

Por que um erro parece confirmar tudo o que você pensa sobre si?

Quando existe uma percepção negativa sobre si, determinadas experiências podem ganhar o papel de confirmação.

Por exemplo, cometer um erro durante uma apresentação pode parecer evidência de incompetência. Uma conversa desconfortável pode confirmar a ideia de não saber se relacionar. Já uma rejeição pode ser interpretada como prova de que existe algo fundamentalmente inadequado em si.

Ao mesmo tempo, situações que contradizem essa percepção podem receber menos atenção.

Um bom desempenho vira “obrigação”. Um elogio é explicado pela gentileza de quem o fez. Uma conquista parece pequena porque outra pessoa alcançou algo diferente.

Dessa forma, a maneira como os acontecimentos são interpretados pode reforçar padrões já existentes.

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, compreender as relações entre pensamentos, emoções e comportamentos permite observar esses processos com mais clareza. Na prática de Liza, a TCC constitui a base clínica e é integrada a outras abordagens conforme a história e as necessidades de cada paciente.

Autoestima não precisa depender de se sentir confiante o tempo todo

Confiança pode variar conforme o contexto.

Uma pessoa pode começar um trabalho novo e se sentir insegura. Pode entrar em um grupo desconhecido e não saber como será recebida. Da mesma forma, pode enfrentar uma decisão importante sem ter certeza sobre sua capacidade de lidar com as consequências.

Essas experiências não determinam, por si só, uma baixa autoestima.

Por isso, construir uma relação mais estável consigo não significa eliminar toda insegurança.

Em alguns momentos, agir com autonomia pode exigir fazer algo mesmo sem se sentir completamente confiante. Em outros, pode envolver reconhecer uma limitação sem transformar essa percepção em uma condenação pessoal.

Nesse sentido, a flexibilidade psicológica também pode contribuir para o processo. Ela amplia a possibilidade de reconhecer pensamentos e emoções difíceis sem permitir que eles definam automaticamente todas as escolhas. Esse desenvolvimento faz parte do propósito clínico descrito por Liza.

A necessidade de agradar pode afastar você de si

Quando a aprovação externa assume muita importância, algumas escolhas podem começar a ser organizadas em torno daquilo que os outros esperam.

Isso pode aparecer em decisões pequenas, como evitar expressar uma preferência, e também em questões importantes, como carreira, relacionamentos e projetos de vida.

Em especial, mulheres podem lidar com diferentes expectativas relacionadas à vida afetiva, profissional, familiar e pessoal. O briefing da Liza destaca pressões associadas aos múltiplos papéis atribuídos às mulheres, bem como dificuldades para priorizar as próprias necessidades em determinadas fases da vida.

Nesse contexto, a autoestima também se relaciona à possibilidade de reconhecer aquilo que a própria pessoa deseja e valoriza.

Se toda escolha passa primeiro pelo filtro da aprovação, pode ficar difícil distinguir um desejo pessoal de uma expectativa aprendida.

Por isso, autoconhecimento e autoestima podem se encontrar justamente nesse ponto: compreender quem se é também envolve reconhecer quais referências estão orientando as próprias escolhas.

Como a baixa autoestima pode afetar os relacionamentos?

A maneira como uma pessoa se percebe pode influenciar a forma como participa de seus vínculos.

Quando existe uma sensação persistente de não ser suficiente, situações comuns podem ganhar significados diferentes. Uma discordância pode ser interpretada como rejeição. Um limite colocado pelo outro pode parecer sinal de abandono. Uma crítica pode ser vivida como confirmação de uma inadequação pessoal.

Além disso, o medo de perder um vínculo pode dificultar a expressão de necessidades ou limites.

Por outro lado, a insegurança também pode gerar uma busca frequente por garantias de que a relação está bem. Nesse caso, o alívio oferecido pela confirmação externa pode durar pouco, fazendo com que novas dúvidas apareçam posteriormente.

Compreender esse funcionamento ajuda a observar o relacionamento para além do comportamento do outro.

Afinal, vínculos são construídos por diferentes experiências, expectativas e padrões. Reconhecer aquilo que cada pessoa leva para uma relação pode ampliar as possibilidades de participar dela com maior consciência.

Baixa autoestima na adolescência

A adolescência merece atenção específica porque envolve formação da identidade, amadurecimento emocional e construção de autonomia.

Nesse período, baixa autoestima, autocrítica, insegurança, dificuldades de pertencimento e comparação social podem aparecer juntamente com conflitos familiares, amizades, primeiros relacionamentos, imagem corporal e outras questões.

Além disso, a percepção sobre si pode ser atravessada pela experiência de aceitação em diferentes grupos.

Por isso, o acompanhamento psicológico de adolescentes considera tanto as questões apresentadas quanto a história e o contexto de cada paciente.

Nesse processo, compreender padrões de comparação, autocrítica e busca por aprovação pode ajudar o adolescente a desenvolver maior consciência sobre a maneira como constrói sua percepção de si.

Ao mesmo tempo, o amadurecimento emocional envolve gradualmente ampliar autonomia e reconhecer valores próprios, sem esperar que todas as inseguranças desapareçam primeiro.

Como a psicoterapia pode ajudar na baixa autoestima?

Na psicoterapia, a baixa autoestima pode ser compreendida dentro da história e das experiências de cada pessoa.

Primeiramente, o processo pode ajudar a reconhecer padrões de pensamento, emoção e comportamento relacionados à maneira como alguém se percebe. Além disso, é possível observar situações que intensificam insegurança, comparação ou necessidade de aprovação.

Na minha prática, utilizo a Terapia Cognitivo-Comportamental como base e integro principalmente recursos da Terapia de Aceitação e Compromisso e da Terapia Comportamental Dialética conforme as necessidades de cada paciente.

A TCC pode contribuir para compreender padrões de pensamento e comportamento relacionados ao sofrimento emocional. Por sua vez, a ACT acrescenta recursos ligados à flexibilidade psicológica e à clarificação de valores.

Assim, o processo pode incluir tanto a compreensão de como uma pessoa aprendeu a se avaliar quanto a construção de uma relação diferente com pensamentos autocríticos e inseguranças.

Ao mesmo tempo, reconhecer valores pode oferecer outra referência para as escolhas. Em vez de depender exclusivamente da pergunta “o que vão pensar de mim?”, a pessoa pode começar a considerar “o que faz sentido para mim?”.

É possível construir uma autoestima menos dependente da aprovação?

A percepção sobre si pode mudar ao longo da vida.

Contudo, esse processo não precisa depender de alcançar um estado em que toda insegurança desapareça ou em que a pessoa passe a gostar de absolutamente tudo em si.

Em termos práticos, uma autoestima menos dependente da aprovação pode envolver reconhecer qualidades e limitações sem transformar nenhuma delas em uma medida definitiva de valor.

Também pode significar tolerar a possibilidade de desagradar alguém quando uma escolha é coerente com aquilo que importa. Da mesma forma, pode envolver receber uma crítica sem concluir automaticamente que ela define quem se é.

Com o passar do tempo, compreender padrões de comparação e autocrítica pode ampliar a autonomia.

Assim, a opinião dos outros continua tendo significado, especialmente quando vem de pessoas importantes, mas deixa de ocupar sozinha o lugar de referência sobre o próprio valor.

Pertencer sem precisar provar que merece estar ali

A baixa autoestima pode fazer com que a pessoa passe muito tempo tentando descobrir se é boa, interessante, competente ou adequada o suficiente para ocupar determinados espaços.

Como resultado, pertencer parece depender de aprovação constante.

Entretanto, compreender de onde vêm padrões de comparação, insegurança e autocrítica pode abrir outras possibilidades. Aos poucos, a pessoa pode reconhecer quais avaliações assumiram um peso excessivo e quais expectativas passaram a orientar sua maneira de viver.

Além disso, o autoconhecimento pode ajudar a construir escolhas mais coerentes com valores pessoais, um dos eixos que orientam o trabalho clínico de Liza.

Por fim, desenvolver autoestima não significa chegar a um ponto em que nenhuma dúvida sobre si volte a aparecer. O processo pode ajudar a construir uma relação consigo em que inseguranças, críticas e comparações existam sem determinar integralmente quem você acredita ser ou quais espaços acredita ter o direito de ocupar.